Aos que deixei e aos que deixaram (e aos que ainda hão de ir)

Ah! Meu velho amigo amado

Hoje penso nas distancias

Que se assomam os corações.

 

Hoje penso na vida

E ela me reconhece

Se desatina a mim.

 

Penso na alegria que me deste,

Na felicidade que criamos,

E no apoio que nos solidificamos.

 

Penso na solidão que sinto

E se hoje gostaria

De prosar as complexidades.

 

A mecânica que nos rege

E o mundo que regemos

Que edificamos dia-a-dia.

 

Penso nas tuas dores

Nas angustias que sente

E nos conselhos que deu.

 

Nas discussões acalentadas

Sobre a paixão pela arte

E a vida que nos negava.

 

Hoje as despedidas não me doem

E te aceno de longe um adeus

De braços abertos caso voltar

 

Para compartilhar a dor de viver

E suas alegrias e recordações,

Falar da melancolia e do amor.

 

E saber que não estamos sós,

Que somos altivos e fortes

Que somos grandes humanos.

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Manifesto

  Ultimamente meus ombros enrijecidos vem estranhando a leveza que sentem, anseiam, masoquistas, o retorno do peso que foram ensinados a viver desde que se entendem por ombros. Desisti de algo que nunca me faltou, nunca se acomodou em meu ser por mais que o obrigasse a aflorar. Já não me dói mais assim ser sozinho, não me asfixiada o medo da solidão e, não temo as beiradas escuras da mente que se revelam labirintos inteiros de reflexões dolorosas ou alegres.

  Pôr a casa de si mesmo no lugar é um trabalho árduo e tortuoso. É ser juiz, carrasco e réu de si mesmo e quantas vezes a guilhotina não decepou minhas antigas ideias e reabriu dores infernais em meu peito! Mas, como uma hidra, todas as vezes renasço de mim mesmo e sorrio a ver o sol.

 Eu estranho os outros, calcificados em suas desconfianças e ânsias aglutinadas. Ponderando mil interpretações de minhas palavras como se minha voz por si só não se bastasse de verdade e sinceridade. Me questiono se o reconhecimento de nossas existências não nos basta, questiono a necessidade de estar em completo e intenso teatro, numa complexidade maquinal de atos fúteis e irrelevantes as nossas próprias vontades.

  Pergunto onde estão os outros que são senhores de si!? E a busca desesperadora que tenho de encontrar um igual em seus desprendimentos, pois desejo olhar o mundo com cumplicidade! Desejo dizer:

 – Pois, nós, portamos um segredo clandestino! E podemos fitar-nos os olhos, pois nada é mais incrível que a força de nossa existência. Vamos! Vamos adiante engolir o mundo com nossa compreensão faminta! Vamos! Vamos dilacerar os conceitos que nos prendem, vamos nos revoltar contra as ânsias que nos sufocam!

E dane-se aquele que diz que não nos esforçamos o bastante diante das regras de seu mundo doentio. E dane-se a incapacidade de reconhecer quão poderosa é a própria existência! Pois a ela não nós negamos. A ela, mergulhamos profundamente. A ela brindamos e dançamos, dançamos a música silenciosa de nosso próprio espirito altivo e a noite podemos contemplar o quão absurda a vida é com um sorriso no rosto.

  Somos! Nós somos!

 E aquele que ainda se contorce nos grilhões do Homem de mármore, eu digo que o espero, anseio o teu encontro na aurora da humanidade. Pois não mais merecemos a dor, a culpa e a morte ordinária. Não mais merecemos as ânsias, as tristezas e preocupações mundanas.

 Não mais, meu amigo, não mais.

Nili e Raquel

Meu universo é Léxico

Cujos mundos poéticos

Se consolidam enfim.

 

Aqui, minha Alma

Esparrama.

Aqui, meu sangue

Derrama.

 

Eternizo o Estar

Pois deixei de crer

Ou que hei de ser

Pois nada Sou.

 

Estou.

 

O Devir de todo ser

Como me ensinou

Helénē de olhos azuis

Azuis como a tristeza.

 

As folhas da existência caem

O tempo me concede morte

Mas também concede vida.

 

Consolida a reflexão passada,

O amadurecimento presente;

O desprezo pelo que é futuro.

 

A crença no Nada,

No próprio Eu,

Também n’Outro.

 

Pois, saborear!

A doce percepção

Do lhe cerca,

 

E bailar a vida!

No sonho sonhado

Pela vida d’Outro,

 

Que deixou,

Deixou de existir

Deixou de importar.

 

O mundo abre-se a mim.

Sobre os romances modernos

É importante que você saiba:

Eu sou a inconsistência,

Sou a compulsão ambulante,

Um aglomerado mecânico.

 

É importante que você saiba:

Meus medos me dominam.

A minha ânsia me consome

E minha alma já está morta.

 

É importante que você saiba.

É um aviso prévio que te dou

É uma mentira que acredito.

 

É importante que você saiba,

Para que não haja nada mais

Além de outro desencontro

 

De almas tristes e penadas.

Conversa com um fantasma

 É Eu e Ela num quarto ensolarado de manhã. Ela tem enormes cabelos lisos que lhe caem a pele pálida e olhos castanhos negros que se direcionam a mim com calma junto de um sorriso alegre. Uma camisa branca lhe cai o corpo, revelando o ombro e a clavícula erodida.

 – Sinto sua falta. – Ela me diz.

 – Também sinto a sua. – Respondo com vontade de dizer muito mais, ainda que as palavras exatas de meu discurso não se mostrem a mim.

 – Você é um idiota, você sabe, não é? – Eu sei, mas não respondo nada, me limito a ser julgado pelo sorriso dela que estremece subitamente por um segundo, demonstrando a tristeza que ela sente. Me desculpe. – Tem algo a me dizer?

 – Eu tenho.

 Ela faz silencio e espera por qualquer que seja o que eu tenho a lhe dizer, ainda assim algo me engasga.

 Me desculpe.

 – Tanta coisa vem acontecendo. – Eu consigo enfim dizer, depois de desviar os olhos dela e fitar o chão. – Sinto falta de ser sincero.

 – Você está sendo sincero agora? – As palavras dela rebatem as minhas assim que as termino de proferir.

 – Estou.

 – Eu não acredito em você.

 – Você tem o direito de não acreditar. – Digo retornando o olhar. – Eu não tenho mais ninguém.

 – Nem a mim você tem mais, não é? – Tudo o que ela diz não expressa fúria, expressa apenas a indiferença vazia, como se uma mágoa tivesse criado uma rachadura na represa dos sentimentos que ela pudera vir a cultivar por mim.

 Nem a você, infelizmente.

 – Você quer se explicar, se justificar?

 – Não.

 – Então porque você está aqui? – Os olhos dela me fulminam, me acuam contra um paredão.

 – Porque eu gostaria de ter você por perto ainda.

 – Por que?

 – Não sei. – Porque ainda que sua confiança em mim tenha sido destroçada, ainda que a mágoa que você sinta te leve a um silencio vazio, ainda que eu tenha aprendido a gostar da minha solidão, você é a única a quem eu poderia liberar as amarras da minha existência.

 – Você pode fazer melhor.

 – Eu me sinto só, eu me sinto só como uma alma penada que não restou ninguém para assombrar. Eu me sinto só como o ultimo ser humano da terra. Me sinto só porque tudo o que me cerca é falso e mentiroso e as pessoas não compreendem como a minha alma respira e fala. Eu me sinto só porque só sei falar com você e mais ninguém.

 Tudo saiu como um vomito léxico contraindo minha garganta. Meu coração se acelerou e algo parecia me sufocar de dentro para fora.

 – Agora melhorou. – Foi tudo o que ela disse.

 – Eu queria poder te confessar as coisas que eu sinto e me esmagam de noite. Eu queria te chamar para ver filmes e falar sobre música, eu queria falar sobre as pessoas e a solidão, queria os seus comentários inteligentes e seus sorrisos. Eu queria me sentir bem e me sentir vivo. Eu quero você na minha vida.

 – Você está falando com um fantasma. – Ela me diz. – Você está falando com a imagem petrificada que você criou de mim, porque eu não existo mais, não para você.

 – E tem outro jeito? Tem outra maneira deu aliviar a agonia em minha alma? Fantasmas são o que me restam.

 – Você já tentou pedir desculpas?

 – Funcionaria?

 – Você acha que não, então nem eu posso te desculpar.

 Lagrimas me caem o rosto.

 – Me desculpe.

 Mas ela não está mais aqui.

Homem do Abismo

Me lancei ao abismo!

O abismo em mim;

Não apenas o fitei.

 

Eu o abracei e o engoli,

Rugi desesperadamente:

– Não há de haver escuro!

 

Não há de haver mentira!

Eis o trilho de pedras pontudas

E estou de alma descalça.

 

E admitir-me-ei enfim

Contra a náusea ardente

Em minha garganta.

 

Convulsionando a alma afora

Numa hipocondria absurda

Criada contra meu próprio Eu.

 

Dessa longa jornada às escuras

Fluirei um titã de mim mesmo

Em silencio por tantas tristezas

 

Mas sincero à sua própria face.

Efeito-bergman

A solidão me perscruta perguntas

Às ânsias que tanto me devoram;

O monologo de espelhos partidos

Reflete um espirito fragmentado.

 

Permuta os ossos, o sopro gélido

De dores agudas desconhecidas;

Dirigem-se ao Deus desaparecido

Incapazes de sentirem-se raivosas.

 

Os transigentes na avenida da vida,

Vão cruzando calçadas às cegas

Atormentados pela falta de destino.

 

Há respostas caladas entre a névoa

Da incerteza que nos foi encrustada

Para nunca se afirmar uma verdade.

 

Pois estas não existem!

Estas não preenchem

A cratera em meu ser!

 

Estas, inseguras de si!

Que não se firmam

Que me dilaceram.

 

O arraso da praia rochosa

Em tons de preto-e-branco

Ansiado encontrar a Morte.

 

E o Homem todo amargo

Descontando suas dores

Em quaisquer existências.

 

E o Homem que se perdeu

No caminho nunca achado

Mas seguido religiosamente.

 

O HOMEM LIVRE!

Urgindo correntes

Urgindo anestesias.

 

Embriagou-se até esquecer

E deixou a centelha morrer

Como uma dor pontiaguda

Fixa em seu córtex cerebral.

 

Este mundo não abasta

Da inquietude inabalada

Que me fez sorrir o Dia.