Medusa

Suas curvas me elipsam,

Me eclipsam num aperto

Que pulsa lento o coração.

 

Sob Édens suspensos

Oferecendo convites

Que levam a perdição.

 

Sua voz me envolve

Seu toque eletrifica

Seus olhos condenam.

 

Sereia-serpente,

Quero teus contornos

Em torno de mim.

 

Suas roupas-escamas

Caindo sobre a cama

Revelam a pele profana.

 

Ardiloso o veneno da musa,

Dá formas as poesias

Em meu coração.

Mercadorama

Se antes fiz silencio

É porque não

Adiantou gritar.

 

Se o compasso é lento

Talvez ninguém

Saiba acompanhar.

 

Desilusões de vida

São dramas que

Passam na tevê.

 

Foi mudando

Os canais

Que encontrei você.

 

Não sei te assisto

Ou vou até aí

Te conhecer

 

A vida é esperar

E esperar

Indica ação

 

Verbo intransitivo;

Matou meu

Coração.

Sobre lobos e chacais

Na colina nebulosa,

Sob um vale negro,

Percebi que não se

Existem heróis e vilões.

 

Somos todos animais

Como lobos e chacais

Devorando as próprias

Patas e almas encardidas.

 

Nosso ser é ímpio

Canibal autofágico

Encarcerado em

Linhas brancas.

 

Estou anestesiado

Estou entorpecido

Derivando desertos

Em calabouços.

 

Os infantes do inferno

Regem vícios do homem

E na insignificância

Encontram relevância.

 

Num único segundo

Da vida da morte

Da noite do dia

Desvanecendo-se.

 

Percebo que não sou arauto.

Sou um corvo negro no céu.

Testemunhando pecados,

Deslumbrando desastres.

 

Do homem venoso,

Do homem porco,

O homem fungo,

O ser mundano.

 

Asfixiando mentes,

Enforcando almas,

Encarcerando ventres

Sob entranhas espectrais

 

Decaio.

Andarilho

Meu mundo se dissolve no outono

Sombra e fogo envoltos na garganta

Como tantas outras joias sem brilho;

Encontro na névoa um velho amor.

 

Deixe o orvalho pintar os meus lábios

Com cheiro agridoce de uma colheita.

Numa memória em branco posso ver

Você indo embora em uma estrada.

 

O teu cabelo brilha a cor do inverno.

Sua forma no nevoeiro acena a mim;

Fantasma ou visão, já nem importo.

 

Eu me perco.

 

 

A vaca sagrada

No topo da colina montanhosa

Homens modernos recriam os

Feudos extintos dos reis caídos

E seus calabouços assombrados.

 

Prisões astrais que encarnam

Grades brancas enfileiradas

Que se vão uma por uma no

Abismo profundo da existência.

 

Um homem vil se faz necessário

Como o único infante do inferno

Oferece barganhas ao desespero.

 

De olhos cegos-opacos,

Sua existência se desfaz

Como poeira vulcânica.

 

Infiltrando almas e mentes,

Consumindo corações até

Que vazões magmas caiam.

 

Os espíritos vazando além

Dos poros da humanidade;

Porcos na pele de homens.

 

Aqui é o castelo absoluto

Dos reféns da hipocrisia

Mastigando a si mesmos.

 

Como canibais insanos,

Perpetuando a loucura

Em nome d’algum Deus.

 

Alguém queime essas vigas,

Que timbram almas penadas

Cheias de gritos sufocados.

 

Uma voz silenciosa brada:

 

– Ou você devora,

Ou é devorado;

Ou você morre.

Toda leveza de viver

Você de cachos ruivos

Flutua no respiro lento

Do sono sob o relento

D’alguma sala de estar.

 

Você de olhos verdes esmeris

Afiados como laminas agudas

Que timbram em vozes mudas

Tudo o que a alma tem a falar.

 

Eu te vejo em campos elísios,

Paraísos sob o ato de sonhar.

Pergunto para o amigo tempo

Se seria eu capaz de lhe amar.

 

Me dou um pequeno momento

Um segundo eterno e sereno

Em que seu ser vem me inflamar e

Deixar em meu coração você ficar.