Questão para poetas [1]

Tudo que disse
alguém disse antes
ainda assim sempre
há mais a dizer
mas como dito,
se já se disse
tudo a dizer?

Que-diga

O senhor bem sabe bem

Tudo tudo que nem sei

Ideia em faro cão cassei

Latiu latiu contra o erroso

Rindo feito praça avessa

De um tranco se arrupeia

Diz me diz choramingante

Já vou já vou já vou!

Distânsia

Escrevo-lhe à natureza das flores

Hilda e teu caracol de puro fogo,

todas quantas outras palavras

qu’eu mesmo gostaria inventar.

tantas falhas traduções do Todo

aos cacos tentam Absoluto formar

distando tão doído ponto absorto

que nem a geografia da carne

nos é capaz de delinear.

Névoa

És tu,

deitada ao meu lado num impasso de distancia

quem dita a voragem do sonhar acordado

na escuridão lucida despida em desejo

poema fátuo que procuro e almejo

eternidade e instante, ardente consoante

pássaro, que não vi passar

pelas nuvens de minha alma.

Ainda falando de Maria

E tu dizes feito Gruchénka:

que poderias beijar-te só os pézinhos,

ao nosso redor havia canto cigano e

risos diluídos de homens diluídos.

 

Mais ousada e leve que a asa dum pássaro

cada choque de nós, cada encontro,

era como a epifania, um chamado de teus lábios.

 

Ainda que tão rápido quanto ungia, – repelias!

e o constante sorriso castanho me deixou pensando

se juras de amor Karamazov ainda valeriam a pena.

Delírio #11

Será milagre ou provação

quanto sofrimento concebe perdão

e faz chover tão árduo sertão

 

Travessia que nunca finda

me atravessa esse sentimento

de estar indo à algum outro lugar

 

O vento diz que o céu é poderoso

que teu sopro venha a terra me guiar

e Deus nunca ponha-me em alvoroço

diante do que há de se enfrentar.

Orquídea

É dia ameno primavera celeste

Tua flor folheia nova vida

E os pássaros ritmam o coração

Não sei seus nomes, mas sei seus sons

Assim é o que me preenche não ardente

Mas acalenta como o gosto sorvete.

 

O doce orvalho úmido no quintal

Refresca o ar de meus pulmões insones

Como presença que me afasta as dores

Traz o sentir manso que não nomeio

Por medo de esvai-lo com a um segredo.

 

Eu poderia pousar eterno no teu cheiro

E dormir sereno como a natureza

Em unidade com a misteriosa certeza

Dispensando pesares, pensares em sutileza

Derivando não o tempo mas as estações.