Orquídea

É dia ameno primavera celeste

Tua flor folheia nova vida

E os pássaros ritmam o coração

Não sei seus nomes, mas sei seus sons

Assim é o que me preenche não ardente

Mas acalenta como o gosto sorvete.

 

O doce orvalho úmido no quintal

Refresca o ar de meus pulmões insones

Como presença que me afasta as dores

Traz o sentir manso que não nomeio

Por medo de esvai-lo com a um segredo.

 

Eu poderia pousar eterno no teu cheiro

E dormir sereno como a natureza

Em unidade com a misteriosa certeza

Dispensando pesares, pensares em sutileza

Derivando não o tempo mas as estações.

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Flâmula

Deixa-me simplificar-te o mistério

Ainda que a dissolução desfaça o mito

A sede poética me impele ao impossível

Contemplo palavras como quem vê pios matinais

E deseja remontar o pássaro em sua perfeição

Crente de que este alçará voo do papel

Mas são cinzas só cinzas o que atiço no amago

Da fé urgindo a fênix na última esperança de brasa ardente.

Areia

Silencio aos berros da madrugada

Estardalhaço dissonante socorro

Oração expiatória ao anjo do delírio

Rogai mudo aos portões dos sonhos.

 

O poeta aborta palavras na garganta

A prole amontoada numa vala métrica

Esperam por um santuário satisfatório

Às suas mortes vindouras e agudas.

 

Ouço estáticos atritos do ar

Como concha ruindo mar

Oco do caramujo salgado.

 

No abismo meu latente devir

Todo meio termo todo vão em vão

Remontando o indivisível fraturado.

 

De um não-ser sendo que está

Firme como a raiz da alvorada

Clamando a tardia dissolução

Esvaindo em pálpebras cansadas.

 

 

Soneto #1

Não existe Morte assim como Marte

Tudo flui em moção à eternidade.

Não há temor em viver a simplicidade

A Verdade se consolida através da arte.

 

Fronteiras são falsas assim como fartas

Triste logro permeia a realidade.

Flagelador divino, decepador de matas

O monumento ao ego chama-se cidade.

 

Há quem diga que o mundo não tem idade

No eterno retorno, a única veracidade,

Pobre quem aturde egoísmo e alteridade.

 

Ninguém sabe quando se deu o disparte

Desse erro que nos estilhaçou aparte

E fez do desespero um ídolo e estandarte.

Avenida

  Um feixe esbranquiçado de manhã irradia através das lacunas de uma cortina de cetim. Fragmentos de poeira flutuantes se revelam por onde a luz se projeta, acima de uma mesa velha lotada de papéis desordenados. Uma pomba dá um único e solitário pio junto de três batidas de asas; uma lufada de vento bate contra a janela fazendo o vidro estremecer. A luz intensifica e se esparrama por uma cama na qual uma mulher dorme envolvida por edredons, de costas para um homem por cima dos cobertores. Sua perna esquerda cai irregular até o chão, a calça segurada por suspensórios e uma regata branca lhe cobre a pele negra. Um copo d’água ao lado da cama treme ao passar de um trem, assim que acalma, os tiques do relógio ao lado do copo ainda reverberam em sua superfície. Um barulho oco chega até o quarto e a mulher estremece.

  O barulho volta quando o ponteiro dos minutos desce e não espera a próxima queda para se fazer ouvir de novo. Ela abre os olhos subitamente no fim de uma sequência de batidas e levanta com um suspiro, pegando um roupão na cabeceira ao lado. Sua cabeça gira para fitar o marido e as batidas retornam, a fazendo sair do quarto apressada. – Já vai! – A voz dela ecoa até a cama, fazendo-o estremecer. O relógio desce mais um minuto, ela pisa forte no chão quando retorna, indo em direção ao marido.

  – Querido, acorde, a polícia está aqui. – Seus olhos, quando se abrem, denunciam o mesmo cansaço com o qual observa um policial sentar-se de frente para si, no lado oposto da mesa da sala, abrindo uma pequena caderneta antes de começar uma sequência de perguntas burocráticas. Seus olhos piscam na direção da cozinha e retornam ao policial. Sua mulher observa uma chaleira ferver no fogão, olhos bem abertos e corpo imóvel. De súbito, expira profundamente quando a água começa a borbulhar, apaga o fogão com uma mão e pega a chaleira com a outra. O cheiro do café transborda pelo apartamento na medida que é filtrado. – Qual foi a última vez em que se encontrou com Camila Almeida dos Santos? – O policial pergunta para seu marido no momento em que ela cruza a porta aberta da cozinha para a sala. Seu corpo estanca e volta o olhar ao marido. Ele engole em seco e abre a boca.

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Margridoce

Pois neste mar de Jade já não mais capitaneio

sob os sopros de mauventos já não mais velejo

sem ondas de ódio e rancor, sem remos de amor.

Os cárdicos de minha barca evitam a tempestade

e prezam serenos que tuas águas encontrem paz

no desembocar das misteriosas baias da eternidade.

Em queda

Do corpo caído rompe o abismo

de amago escarlate, céu noturno

fractal rasgo de escuridão, estelar

fratura de fendas corpóreas vazam

eternidades ósseas agônicas; assim

rega tão descarnada spleen noturna

flor dos delírios ardentes; espíritos

flutuam afora do tempo em fuga

apavorada madrugada amanhece

oscilante; ora pela atenção do sonho hora

pela distração do sonho lívido não vivido

teus olhos; astro em brilho febril

como o moribundo devaneio suspira

calcificados pensamentos do amanhã.