O Diabo

Sou o objeto do teu desprezo

fonte de seu sadismo soberbo

discurso de seu escarnio hipócrita

 

Sou seu palhaço suicida

as baratas que tanto pisa

e o desconto de tua dor

 

Sou o reflexo dos teus olhos

o tom encardido de tua alma

e o verme em teu cadáver ambulante

 

Sou tudo que tu é mas esconde

sou o eterno retorno do mesmo

e o que sobrevive onde teu ser não pode sondar

 

Sou seus pesadelos

sua esquizofrenia

e seu inconsciente freudiano pulsando morte nas madrugadas.

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Não te prometo nada

Meus sapatos encardidos e uma blusa amassada protestam silenciosos ante tua porta fechada

uma ou duas lágrimas escorrem por meu rosto antes que a solidão me engula

recomponho o oceano de minha alma num copo d’água ondulando pela praia dos teus sonhos

 

Você espera ouvir de mim o que ouve de mim através de si mesma mas minha compreensão assusta as juntas dos seus ossos cansados

nossas mãos unidas nada querem dizer aos olhos do céu silencioso e azul de alguma hora da manhã

e tudo que eu queria era confabular com teus lábios até estar cansado demais para respirar

 

O sofrimento infligido dos Homens crucificaram cristo em meu coração

dos vincos de sangue seco dos poros flagelados pelo ridículo

vai escorrendo o delírio do amor regando caules de flores e poesias

 

Nunca verei por teus olhos mente corpo nunca entenderei nem interpretarei seu coração

caso adentre as vielas da sua alma machucada dilacerei cada espaço de escuridão com o discernimento pontiagudo de minha existência

enquanto querubins cantam através das aves de rapinas numa campina de morte deixada por nós dois

 

Nostalgia

O profundo âmbar de teus olhos me engole

enquanto sigo delirando num vagão de corpos espremidos na estação da sé

quase todos de almas ausentes observando os pontos vazios de lugar nenhum

 

A tristeza chove São paulo e Deus se desespera num engarrafamento radial

mas teus olhos me engolem e a lembrança de ti me toca como tocava às seis da tarde ensolarada da praça da república

teus olhos me engolem e seu corpo me impele através de meus sonhos

 

Um anjo sussurra em meus ouvidos todos os pecados que podemos cometer

me falta uma desculpa qualquer para pedir-lhe os lábios

tu duvida minha alma de poesia e mentira desconfiando o discurso que emana meu ser

 

E as flores vão apodrecendo ao nosso redor

Noite

Um rastro de morte corre a sombra da noite

com o vento e seus tons soprados

manchando o espaço permeado de vida.

 

Ela anda nas ruas de pedra e de sangue

atravessa o espaço dos séculos

com a fragilidade de seu corpo fino

vertendo uma alma em tristezas.

 

Ao acaso de todos os mantras

ela e algum outro aquém

recebem o delírio da mortalidade.

 

A noiva de todo ser se aglutina

seu abraço maculador de almas

seu aperto sufocando corpos

suas garras afincam mentes.

 

O coração dispara entre o amor e horror

por mais que desesperado se aceite

ela nunca consuma seu beijo sagrado.

 

Eis seu deleite soturno torturando a todos nós

como tortura a garota magrela

vertiginando os santos barrocos

observando sua garganta sufocada

enquanto esperam nos lares abandonados de Deus.

Delirium tremens

Tua beleza é minha perdição

Até o diabo, em mim, vem amar.

Tua beleza me dói além do peito

Acorda o mais afoito e vil ansiar.

 

Fosse tu, fugaz sabiá,

Não haveria outro querer

Senão o do engaiolar.

 

Tua posse às escuras

Tal a inveja do apreciar

Te vendo correr os dias

A lentamente definhar.

Dia de Todos-os-Santos

Fim de tarde e as nuvens são vermelhas

Assim como as calçadas manchadas de sangue

Dos homens que morrem em becos da Treze de maio

Enquanto Serafins masturbam as sete trombetas do apocalipse

Torcendo para que seu gozo lave cada Fausto da terra

Trazendo ao Diabo seus queridos infantes

Condenados a terrível danação eterna

Que nem as putas, os pobres e os pretos

Tem direito de participar.

 

A mãe do inferno rejubila de pernas abertas

E seu delírio escorre feito fogo no chão

Enquanto homens se esfregam em seu clitoris

Até que suas faces desfiguram de prazer

E gritos ecoam do banquete satanico

Onde Mefistófeles brinda seus doces súditos

Os poetas, os fracos e os suicidas

Que pularam como anjos dos arranhas-céus

E perecem com os ossos esmagados e sons de agonia

A espera dos fetos abortados cozinhando num caldeirão.

 

Tudo isso observado do céu,

Onde Deus acolhe os bons, os ricos e os virtuosos

E padres são chupados por meninos-anjos-que-dão-o-cu

E Cristo continua a sofrer numa cruz para quem puder pagar o teatro

E os papas jogam truco com Lúcifer fumando cigarros

E capitalistas especulam a morte e miséria

E mães espancadas tem suas bocas costuradas

Para que os justos desfrutem sem preocupações.

Meus amigos, meus camaradinhas

Meus amigos me querem morto

Mas não querem admitir

Quem põem a corda no pescoço

E se trocassem os risos por facas

Não saberiam dizer se era agonia ou graça

Por entre a máscara do palhaço

gritando, gritando e GRITANDO

Não saberiam dizer se era sangue ou tinta guache

Nas paredes dos quartos & roupas no armário.

 

Meus amigos me querem morto

E querem que seja piada

Enquanto dizem “Pão-de-batata”

Por entre os arredores da casa.

 

Meus amigos me querem morto

Querem minha cabeça numa bandeja

E meu corpo numa cruz de mentira

Para ser o cristo do ridículo e cruel

E rirem de meu sofrimento no fim da tarde

Espiando os pecados que cometem

Dia-após-dia-após-dia-após-dia.